Eram três da tarde naquele dia nublado de novembro, enquanto a cidade toda preparava-se para declarar lei marcial contra a marginalidade terrorista. Havia muita manipulação de massas promovida pela rede bobo em conluio com a velha guarda do jornalismo que agora tinha conseguido reeleger Junior Cabron para o governo do estado. As coisas não estavam boas naquela semana, como se obsediados por forças demoníacas, ou subjugados por uma influência irresistível as pessoas tornavam-se histéricas e irracionais.
Questionavam seus próprios olhos e concordavam com absurdos ilógicos que não paravam de ser criados pelos ancoras de TV, e que eram reproduzidas e amplificadas pelas pessoas na internet.
Nesse clima de histeria coletiva Galego no ponto de ônibus pega uma van em direção ao centro da cidade. O motorista da van aparentemente novo na linha não estava acostumado com o ritmo frenético que passageiros como Galego esperam, ele vinha dirigindo um pouco abaixo do limite de velocidade, em qualquer outro dia Galego ficaria irritado entraria naquela Bad do atraso, o stress o faria travar o semblante enquanto conversas normais ganhariam um tom mais ríspido ainda mais se fosse o motorista lento que as inicia-se.
Mas não nesse dia, nem nessa semana, Galego não sabia bem quem dinha dito a pérola perto dele, talvez um mendigo, ou um daqueles hipies que ficam ali perto do cine odeon, não sabia quem mas alguém tinha dito:
“- O bagulho ta sinistro irmão...”
Mas de fato nada disso afetava Galego, ele tinha ao longo do tempo aprendido ver os movimentos do sistema, cada manchete de jornal não era uma manchete era uma forma de passar um conceito, ele via as mensagens subliminares, implícitas e explicitas que as pessoas comuns, mesmo as esclarecidas e as intelectualmente arrogantes não costumavam ver.
Essa era uma das habilidades de Galego que costumava chamar de super poder ou de mutação. Mas não havia nada demais naquele olhar perspicaz que não pudesse ser aprendido ou ensinado, Galego a todo o momento tentava fazer as pessoas enxergarem o mundo como ele, e haviam alguns amigos que acabavam vendo, quase como no Matrix.
Dentro da van, com o ar condicionado ligado e algum espaço sobrando, o motorista escutava um mixórdia de pagode impossível de identificar, ainda mais agora que uma morena lindíssima havia acabado de entrar e havia se sentado ao lado de Galego na van. Ela poderia ter sentado em outro banco, onde não encostaria aquelas coxas bronzeadas pelo sol e talhadas na academia nas pontas dos dedos de Galego que repousavam sobre sua perna. Ela percebendo o toque não intencional ruborizou e fez aquela cara de quem vai pedir desculpa, mas quando Galego olhou em seus olhos aquele sorriso safadinho de menina levada não demorou para surgir no canto de sua boca, logo o sorriso ficou largo e aquela mulher que já era espetacular ficou ainda mais iluminada.
Os dois trocam algumas palavras chave e o clima de azaração fica no ar como se dois cães no cio estivessem sentindo o cheiro do sexo um do outro.
Eis que o telefone dela toca, alguém talvez a mãe ou alguma amiga liga pra morena, e diz que está acontecendo um tiroteio na saída da Ilha. Ela então frisa o cenho e entra naquele estado de pânico velado que as pessoas já estão se acostumando a conviver.
Galego pergunta o que houve, ela diz o que lhe disseram estar acontecendo, mesmo com a assertiva dele, mesmo com os olhos dela olhando a saída da Ilha, que está totalmente tranqüila sem nenhum transito ou bliz ou qualquer barulho que confirme o alarme... mesmo assim ela paga a van desde e volta pra casa.
Galego se frusta e puxa assunto com o motorista que aumenta o som... é Bezerra da Silva...
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