Por muito tempo estive pensando que era o fim, que não adiantava mais lutar por nada e que o pragmatismo era única opção em se falando de política de fato. O que sempre me cativou como militante nunca fora a escalada de poder, nem mesmo a possibilidade de ascensão econômica. Sempre tive a certeza de que poderia ser social e economicamente bem sucedido dedicando-me inteiramente a carreira e aos contatos pessoais. Mas, simplesmente obter sucesso profissionalmente e acumular patrimônio nunca fora suficiente para satisfazer minhas preensões enquanto homem.
Não me basta uma vida comum, eu preciso de mais. Preciso entrar em contato com a história e fazer parte dela. Preciso fazer parte do grupo daqueles que transformam, criam ou destroem. Por isso muito cedo assim que a possibilidade me surgiu, entranhei-me em todo o tipo de processo político que pude encontrar. E para um adolescente de 16 anos aquilo era como lutar com gigantes. Totalmente viciante é a vida de um militante político, foi assim que eu passei minha adolescência não com esportes radicais ou festas, mas as voltas com Maquiavel e Marx. Movendo meus colegas estudantes em torno de causas que às vezes faziam sentido outras não.
Ideologia, a famosa sabedoria já cantada pelo poeta norteava todos aqueles militantes muitos sabendo mais sobre obscuros modelos econômicos do que sobre o próprio universo que os rodeava. Eu nunca gostei de Ideologias pré concebidas, sempre achei mais acertado analisar os fatos com que temos contato do que as divagações de teóricos políticos que viveram em outro tempo em outro país. Mas mesmo assim as crianças crescem e as necessidades da vida adulta batem a nossa porta afinal. E a política partidária surge às vezes como tábua de salvação outras como concretização de um longo trabalho.
E finalmente em 2003 tudo muda para todo o mundo, afinal o maior objetivo de todo o militante se concretiza tivemos um presidente eleito. Elegemos contra todas as possibilidades um homem do povo que se orgulha de receber o primeiro diploma das mãos do presidente do congresso federal. E nunca antes na história desse país foi tão bom pertencer a um grupo. Um grupo vitorioso, ser cumprimentado na rua simplesmente por carregar na lapela uma estrela... E nós confiamos demais, e descansamos afinal era tempo de cuidar da vida deixando a política para o nosso grande líder.
Estar no partido do presidente, ter feito campanha e convencido todos a quem conhecia, não nos da o menor controle sobre os atos, nem do presidente e nem principalmente de seu primeiro escalão. Mas aos olhos daqueles com quem se convive no dia a dia você se torna um embaixador do governo... Culpado mesmo sem ter sido julgado por todas as falcatruas que a imprensa alardeia... E por uma questão de centralismo democrático um termo aprendido ao longo da militância que significa mais ou menos que tem que se fazer o que o coletivo delibera até que ele volte a deliberar novamente e só ai se questiona qualquer coisa. Em nome dessa unidade muitos se calam dando um apoio silencioso e aguardando uma justificativa que nunca chega. Outros não menos ingenuamente debandam para uma oposição rasa e sem programa que por sobrevivência política tenta crucificar todo o governo.
No fim você se vê de frente numa tropa choque pronto para o combate aos pelegos da oposição e vê capitaneando um bando de militantes assistencializados, uma de suas melhores amigas. Que percorreu todo o caminho com você e que há alguns meses atrás estava em Porto Alegre aplaudindo o novo presidente com você. Você segura os dois brutamontes que estão ao seu lado impedindo que sua amiga seja atacada, daí o companheiro que estava a sua frente fica descoberto e o capitão da tropa de choque que cercava o hotel gloria, e teoricamente protegia a reunião onde você estava, com um movimento de kung-fu toma impulso sobre um outro soldado e acerta o seu companheiro descoberto.
Caos caos caos, no outro dia você é capa do jornal ”o dia” tentando catar do chão o seu amigo desacordado. Foi o fim de uma época pra mim.
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