E sim! De certa forma uma passeata muda o mundo. Parando pra pensar na rotina das pessoas e como elas se movem de casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, ou mesmo devolta pra casa. Se pensar-mos na maneira semi-robótica que vivemos, não a nossa vida, mas nossa rotina diária. Será que às vezes não é a rotina que acaba vivendo a nossa vida?
Entendam que para nós, era como no filme Curtindo a vida a doidado ("Ferris Bueller's Day Off " de John Hughes 1986). Como se com uma música dos Beatles e uma boa dose de ousadia pudéssemos fazer a cidade parar e sair dançando enquanto celebrava a vida...
É claro que havia uma motivação maior no que fazíamos não se tratava de um mero carnaval...
Mesmo o carnaval amiúde torna-se uma rotina...
Nosso movimento não queria mudar o mundo com uma passeata não éramos candidatos à miss buscando a paz mundial. Tínhamos bandeiras pontuais, sendo as mais objetivas: O passe livre e a meia entrada estudantil... Tudo isso, é claro, mergulhado numa sopa ideológica de esquerda, a qual como já disse nunca engoli...
Por si só, uma passeata não muda nada! Serve apenas para chamar atenção. Isso eu aprendi na prática.
Houve uma vez que invadimos a câmara de vereadores para impedir a votação de um projeto que acabava com o passe livre. E como se fosse hoje vem a minha memória o finado e saudoso Rogério Cardoso ou Salgadinho como era conhecido à época, acocorado debaixo da mesa quase se mijando de medo...
Tive pena dele, que já era velhinho e tinha a aparência, mas frágil pessoalmente do que aparentava na TV.
Quando fomos retirados pela segurança a votação prosseguiu normalmente, apenas à matéria jornalística marcou nossa passagem por aquela câmara, isso e a leve rastro de destruição que deixamos para trás. Muitas passetas seguiram e enquanto mantínhamos o fogo da mobilização aceso outros colhiam os frutos do alarde que fazíamos.
Éramos muitos, aquilo tudo acontecia em uma época onde a esquerda estava toda voltada para a mobilização e seus quadros não entupiam as entranhas da administração pública. No final daquele processo quando finalmente os desembargadores do Tribunal de Justiça decidiram contra a Fetransport e nós enfim comemoramos nossa vitória. Surgiram as harpias da política para colher o fruto que semeamos durante meses á custa do nosso precioso tempo.
Lembro claramente do então Dep. Sérgio Cabral, famoso defensor da 3ª idade aparecendo oportunisticamente com uma equipe de filmagem própria para gravar CINCO MINUTOS de participação naquele ato. Naquele instante eu não percebi, e só mais tarde durante o noticiário dei conta que todo o movimento tinha sido capitalizado por ele.
Foi assim que conheci o modus operandi do nosso atual governador, escrevi tudo isso para que possam acompanhar o meu raciocinio a seguir... Sobre a passeata dessa quarta feira. Talvez a única passeata que o Sr. Sérgio Cabral Filho já tenha convocado na vida!
(Eram para ser dois posts independentes, mas como falam do mesmo assunto acabei colando um no outro. A partir daqui narro a minha participação na passeata do Cabralzinho).
Peço uma coca-cola e um joelho no chinês do largo da carioca e de repente...
O PETRÓLEO É NOSSO HAHA HUHU !!! O PETRÓLEO É NOSSO HAHA HUHU !!!O PETRÓLEO É NOSSO HAHA HUHU !!!
Olho a minha volta, por baixo do guarda chuva vejo eles gritando, vejo toda uma massa de jovens, militantes, desocupados e muitos... Muitos PMs !!!
Em uma fração de segundo o instinto básico que me leva a estar ali naquele meio... Um instinto que não me deixa partir sem antes estar ali onde a história esta sendo escrita. Uma ânsia comparada talvez somente a de perder a festa de formatura de sua turma. Ou de não assistir a final da copa do mundo, ainda mais com o jogo ali tão perto...
Me invade a saudade de estar no meio da turba, olho em volta procurando pelos meus, percorro a Rio Branco debaixo do guarda-chuva barato, mas não encontro ninguém. Penso em telefonar, mas para quem? Quem viria compartilhar comigo essa visão? Queria um, pelo menos um dos meus com quem pudesse organizar as idéias, mas não acho ninguém.
O breve momento de desorientação passa e volto a me situar no tempo e espaço, aquela não é uma das minhas passeatas. Existe algo de estranho em tudo aquilo, aquilo tudo parece falso... Artificial... Mas o que exatamente?
Paro e penso no contexto político... Pelo que essa gente está aqui? Por petróleo? Pelo dinheiro do petróleo? Nesse atual contexto de apatia generalizada, o que teria feito tanta gente sair de casa debaixo de chuva e lotar a Av. Rio Branco bem no meio da semana? Não essa não é uma passeata, isso não é de verdade não vem do povo. Trata-se da mera antecipação das eleições que se realizarão em pouco mais de seis meses.
Quem mobilizou? Quem organizou e que pretende lucrar com tudo aquilo é aquele velho aproveitador que em cinco minutos conseguiu capitalizar para si o bônus político de todo um movimento estudantil.
Ele ainda não apareceu deixando a impressão de que a mobilização acontece independente de sua participação. Mas seus braços estão em todos os cantos, desde a quantidade excessiva de PMs, até os três trios elétricos usados para animar a galera. Existe toda uma gama de artistas presentes desde o pop, passando por neguinho da beija flor com suas MULHER, MULHER, MULHER... Furacão 2000 e Monobloco...
Mas é quando tocam "festa profana" samba enredo de minha escola de samba, União da Ilha, que eu decido ir embora daquela palhaçada.
Pra quem não se lembra é o samba de 89 que em um de seus versos diz:
"... O rei mandou cair dentro da folia
E lá vou eu, e lá vou eu..."
Nada dali poderia me surpreender, mas pelo menos tendo estado lá ganho o direito de dizer que presenciei tudo aquilo. Talvez tenha sido o instinto jornalístico recém descoberto por este blog que tenha me levado a passear pela passeata.
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Esse texto foi evidentemente uma grande digressão, tentei inovar um pouco a narrativa antes de entrar no assunto com maior clareza, o próximo será mais objetivo...
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